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Reinaldo Nogueira, fundador da ProjetoTI360, durante episódio do podcast Dezpadronize sobre transformação digital

TRANSFORMAÇÃO DIGITAL COMEÇA NAS PESSOAS, NÃO NA TECNOLOGIA: AS LIÇÕES DE REINALDO NOGUEIRA

Você não começa pelo sistema, você começa mudando pessoas.” Essa é a tese central defendida por Reinaldo Nogueira, pesquisador, professor, palestrante e fundador da ProjetoTI360, no episódio “Transformação Digital” do podcast Dezpadronize, da Plataforma ESA. Com mais de 30 anos de experiência em Tecnologia da Informação e Soluções Estratégicas, passando por empresas como Oracle, PepsiCo, Editora Abril e Oracle User Group, Reinaldo defende que a digitalização de qualquer negócio, inclusive de processos de qualidade e gestão, só funciona quando parte de uma mudança humana e estratégica, e não apenas da implementação de um novo sistema.

Neste artigo, reunimos os principais aprendizados da conversa entre Reinaldo Nogueira e a apresentadora Camila Nascimento, com a transcrição completa do episódio ao final para consulta.

Por que a transformação digital deveria se chamar “transformação humana”?

Reinaldo Nogueira leciona em programas de pós-graduação de instituições como ESPM, Saint Paul, BSP e FIA/USP, onde criou uma disciplina própria batizada de Transformação Humana, Estratégica e Digital. A ordem das palavras não é acidental. Segundo ele, o termo “transformação digital” já está consolidado no mercado, mas costuma levar empresas a pular direto para a tecnologia, ignorando o que realmente sustenta qualquer mudança: as pessoas.

A lógica, segundo Nogueira, segue uma hierarquia clara: primeiro as pessoas, depois a estratégia da empresa associada a essas pessoas, e só então a tecnologia, que ele descreve como consequência, não como ponto de partida. Essa visão foi inspirada por um mentor de sua trajetória acadêmica, o professor Pablo Wolfsdorf, que o aconselhou a sempre “colocar o humano na frente”.

Da gaveta trancada à nuvem: como o poder mudou de lugar dentro das empresas

Um dos trechos mais didáticos da conversa é o resgate histórico que Nogueira faz sobre como a informação, e, com ela, o poder dentro das organizações, que migrou de lugar ao longo das décadas. Nos anos 1980, segundo ele, o poder estava literalmente na gaveta, ou seja, quem tinha informação guardada em cadernos e fichas era quem detinha controle sobre processos. Depois vieram os armários de ferro trancados, os gaveteiros sob a mesa e, com a chegada dos primeiros computadores corporativos, uma migração que muitas vezes foi feita sem inteligência, com o conteúdo simplesmente copiado da ficha física para a tela, sem repensar o processo por trás dele.

Com o tempo, os processos deixaram de ser puramente burocráticos e passaram a se tornar regras de negócio voltadas para responder ao mercado, o que ele chama de go-to-market. Atualmente, segundo Nogueira, essa informação saiu completamente do espaço físico e vive na nuvem.

De onde vem o medo da transformação digital?

Um dos pontos mais citáveis da entrevista é a resposta de Nogueira sobre por que tantos profissionais resistem à digitalização. Para ele, o medo não é da tecnologia em si, mas de uma pergunta mais profunda: “será que eu continuarei sendo relevante?”

“O medo vem da perda de poder.” — Reinaldo Nogueira

A resposta para essa insegurança, segundo o especialista, não está em dominar ferramentas, mas em gerar valor para o cliente ou consumidor final. Ele cita o exemplo da pandemia, quando professores que não conseguiram entregar valor real ao aluno através da tela perderam relevância, independentemente de quanto soubessem sobre a tecnologia usada. Hoje, o próprio Nogueira dá aulas simultaneamente para alunos em Caxias do Sul, Natal e Tocantins, uma diversidade geográfica que o modelo presencial não permitiria.

“O poder não mora na tecnologia, mora no valor que você gera.” — Reinaldo Nogueira

O esforço humano por trás da desigualdade digital

A conversa também aborda um lado mais sensível da digitalização, que é o fato de que nem todo mundo tem acesso igual a ela. Nogueira relembra uma reportagem sobre uma mãe na Zona Norte de São Paulo que, durante a pandemia, levava a filha de 9 anos até o ponto final de uma linha de ônibus só para usar o Wi-Fi gratuito do veículo e permitir que a menina estudasse remotamente.

Para ele, esse é um retrato do esforço humano tentando vencer barreiras de acesso com os recursos digitais disponíveis e um lembrete de que a transformação digital, embora seja irreversível, ainda está em um estágio inicial e desigual.

“A transformação digital veio para ficar, mas ainda estamos mexendo no fundo do mar e a água está turva.” — Reinaldo Nogueira

Por que pequenas empresas devem se digitalizar primeiro (não por último)

Um dos trechos mais práticos do episódio é dedicado às pequenas empresas que ainda operam de forma analógica, muitas vezes por desconfiança em relação a sistemas digitais. Nogueira usa um exemplo simples: pessoas que preferem enfrentar fila no banco para conseguir um carimbo físico, mesmo sabendo que esse carimbo é mais fácil de falsificar do que um código digital validado pelo Banco Central.

Para o especialista, é justamente a pequena empresa que tem mais urgência em se digitalizar e não menos:

“A pequena empresa tem obrigação de se transformar, porque ela não tem gordura para queimar.” — Reinaldo Nogueira

Como exemplo prático, ele cita a possibilidade de contratar um software de gestão financeira em nuvem por cerca de R$ 65,00 por mês, ou montar uma loja virtual em poucas horas. A barreira, segundo ele, não é o custo, mas o hábito.

Inteligência competitiva x vantagem competitiva: qual a diferença?

Outro conceito explorado por Nogueira é a diferença entre inteligência competitiva (a combinação interna de pessoas, processos e tecnologia que uma empresa desenvolve) e vantagem competitiva (o momento em que o mercado passa a perceber e valorizar essa combinação). Segundo ele, quem converte inteligência em vantagem mais rápido do que a concorrência sai na frente.

“O digital hoje é o básico.” — Reinaldo Nogueira

A analogia usada é direta: ninguém deixaria um carro totalmente eletrônico em uma oficina cujo mecânico só trabalha com chave de fenda. O mesmo vale para negócios que ainda operam com ferramentas ultrapassadas em um mercado cada vez mais digital.

Como propor mudanças digitais sem virar “o herói sozinho”

Para colaboradores que quer levar uma proposta de digitalização ao chefe, mas não sabem por onde começar, Nogueira tem um conselho direto: nunca tente liderar essa mudança sozinho. Ele cita um ditado chinês que diz que o “dedo que aparece demais é cortado”, para ilustrar o risco de assumir uma transformação de forma isolada. Caso essa ação der errado, o erro carrega o nome de quem tentou, e se der certo, pode gerar desconfiança ou inveja dentro da equipe.

“Peça permissão para testar.” — Reinaldo Nogueira

A recomendação prática é começar pequeno. Se uma operação recebe 100 caminhões por dia, por exemplo, o ideal é testar um novo processo digital com apenas um caminhão, sendo cerca de 1% do volume, e, se funcionar, expandir gradualmente na semana seguinte. Nogueira compara esse processo ao voo do urubu, em círculos, devagar, até ganhar altura.

IA nunca vai substituir o fator humano — e é por isso que ele importa mais

Para encerrar a conversa, Nogueira recorre ao livro Inteligência Artificial, de Kai-Fu Lee, para reforçar seu argumento central, que diz que a inteligência artificial pode saber o que é o amor, mas não tem a capacidade de sentir. Por isso, para ele, o ser humano continua sendo o elemento ativo de qualquer processo de transformação e a tecnologia, por mais avançada que seja, permanece como consequência de um propósito definido por pessoas.

Perguntas frequentes sobre transformação digital

O que é transformação digital, segundo Reinaldo Nogueira?

Para Nogueira, transformação digital não é apenas a adoção de novas tecnologias, mas um processo que precisa começar pelas pessoas, passar pela estratégia do negócio e só então chegar à tecnologia, que atua como consequência dessas duas etapas anteriores.

Por que pequenas empresas devem priorizar a digitalização?

Porque, segundo o especialista, pequenas empresas não têm margem financeira (“gordura”) para sustentar processos manuais ineficientes por muito tempo, ao contrário de grandes corporações. Soluções em nuvem de baixo custo tornam essa transição acessível.

Como propor uma mudança digital dentro de uma empresa sem assumir todo o risco sozinho?

A recomendação é testar em pequena escala, como por exemplo, aplicar um novo processo a 1% das operações antes de expandir, e envolver outras pessoas desde o início, em vez de tentar liderar a mudança de forma isolada.

Qual a diferença entre inteligência competitiva e vantagem competitiva?

Inteligência competitiva é a combinação interna de pessoas, processos e tecnologia de uma empresa. Vantagem competitiva é o que acontece quando o mercado passa a reconhecer e valorizar essa combinação.

Este artigo traz os principais trechos e aprendizados da conversa com Reinaldo Nogueira. Para conferir a entrevista na íntegra, ouça o episódio completo do Dezpadronize – TRANSFORMAÇÃO DIGITAL COM REINALDO NOGUEIRA.

Sobre o especialista

Reinaldo Nogueira é pesquisador, professor, palestrante e fundador da ProjetoTI360, com mais de 30 anos de experiência em Tecnologia da Informação e Soluções Estratégicas. Já atuou em empresas como Oracle, PepsiCo, Editora Abril e Oracle User Group, e hoje leciona em programas de pós-graduação da ESPM, Saint Paul, BSP e FIA/USP. Pode ser encontrado no LinkedIn e no Instagram/Twitter como @profreinaldo.



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